11 de janeiro de 2026

Poesias viscerais diretamente do Ceará

No ano passado, participei mais uma vez do melhor evento de quadrinhos de São Paulo, o Gibi SP Festival, capitaneado pelos queridos Wilson Simonetto e Helena Hernandes. Entre tantas surpresas boas e encontros emocionantes, pude finalmente conhecer ao vivo o escritor e pesquisador Eduardo Pereira, que veio diretamente de Fortaleza-CE para lançar a sua biografia sobre Akira Toriyama, criador do megassucesso "Dragon Ball". Não pudemos conversar tanto como gostaríamos, por conta da movimentação constante em nossas respectivas mesas do evento, mas conseguimos trocar rapidamente bons papos culturais. Gentilmente, Eduardo, sabendo de meu gosto e de minhas atividades como poeta, me presenteou com livros de poesias viscerais, cada um a seu modo, e com fortes laços com o Ceará. Abaixo, um pouco sobre eles:

                                                              Fúria/José Alcides Pinto



José Alcides Pinto (1923-2008), jornalista, escritor e poeta nascido em Fortaleza-CE, é um verdadeiro ícone da poesia brasileira e um dos nomes mais conhecidos da Geração de 45. Filho de um capitão de tropa de ciganos, exerceu a pofissão de jornalista em vários jornais da capital federal entre os anos 1940 e 1960, como Diário Carioca, O Jornal, Diário de Notícias, Correio da Manhã, além da revista Leitura. Para os irmãos Pongetti, organizou duas antologias de novos poetas brasileiros, em 1950 e 1951 e em 1956, fundou no Ceará uma sucursal do movimento concretista. Com mais de 50 livros na carreira, entre contos, romances, poesia, ensaios críticos e peças teatrais, ganhou o prêmio Olavo Bilac pelo conjunto da obra, outorgado pela ABL. Sua literatura, carregada de polêmicas (sua obra poético-erótica Relicário Pornô, de 1982, é uma das mais incensadas e discutidas dentro desse gênero literário), vem recheada de mistérios, sobressaltos, universos fantásticos e sobrenaturais - como ele mesmo sempre deixava claro em suas conversas. Morreu atropelado por uma motocicleta em Fortaleza, aos 85 anos, em plena forma intelectual.


                                           Poemas do Povo da Noite/ Pedro Tierra





Pedro Tierra é o pseudônimo de Hamilton Pereira da Silva, um sobrevivente do inferno carcerário do período mais perverso da ditadura militar. Esse livro nasceu dentro de centros de detenção e porões de tortura, com poemas lidos e declamados posteriormente em reuniões e atos pela Anistia e democracia na virada dos anos 1970/1980.  A obra já está em sua 5ª edição, a última, publicada pela Fundação Perseu Abramo.

                                       Antologia Poética/ Mario Benedetti



Mario Benedetti (1920-2009) é um dos grandes escritores uruguaios e latinoamericanos. Mais um integrante da chamada Geração de 45, ganhou projeção em 1956 com sua obra mais conhecida, Poemas de Oficina. Em sua longa carreira, iniciada em 1949, escreveu mais de 80 obras, entre poesia, contos, ensaios, romances e roteiros para cinema.


                  O Pensamento Cearense na segunda Metade do Século XIX -  Alcântara Nogueira
Essa rara e esgotada obra escrita pelo professor Alcântara Nogueira em 1978 para o Instituro Brasileiro de Filosofia e a Sociedade Cearense de Geografia e História teve como pano de fundo o centenário de Raimundo Antônio da Rocha Lima, nascido em Maranguape-CE em 1878 e que com apenas 23 anos de existência, se tornou um dos pioneiros na construção do pensamento crítico-filosófico/literário no Brasil.

                                                Poesia/ Rosalía de Castro



Rosalía de Castro (1837-1885), escritora e poetisa galega, é considerada a fundadora da literatura galega moderna. Para tanto, o dia 17 de maio é o feriado chamado Dia das Letras Galegas, em comemoração ao lançamento de sua primeira obra em língua galega, Cantares Gallegos. Essa antologia da Brasiliense inclui o melhor de sua obra.


                                                Arauto/ Cândido Rolim



Esse simpático volume editado pelo selo Dubolso, de Sabará-MG em 1988 traz uma coletânea de poesias do escritor residente em Fortaleza/CE. Além desse, Cândido, que colabora ativamente para ensaios e artigos em periódicos aqui e lá fora, lançou as antologias Exemplos Alados (1997), Pedra Habitada (2002) e Camisa Qual (2008). Sua poesia é portentosa, densa e explosiva.


                                          Calentura/ Paulo Alberto Monteiro de Barros


Esse livro de poesias de Paulo Alberto Moretzsohn Monteiro de Barros (nome de batismo do colunista e político Artur da Távola, 1936-2008) passou quase despercebido em 1986. Távola, que teve seu mandato de deputado estadual cassado pelo regime militar e iniciou sua carreira de comunicador no Chile, onde se exilou, já era bem conhecido como jornalista em jornais impressos (onde mantinha colunas sociais e sobre TV) quando lançou esse livro de poesias. Deputado Constituinte e um dos fundadores do PSDB, apresentou em seguida um programa sobre música clássica na TV Senado (por quase 20 anos) e foi diretor da Rádio Roquette Pinto. Lançou vários livros com o pseudônimo que usava na imprensa, mas um de seus grandes sonhos era ser reconhecido como poeta. Não conseguiu, mas graças a sua viúva Mirian Ripper - que dizia que o marido deixara poemas inéditos para três livros - teve um livro póstumo lançado, com 24 poemas inéditos (selecionados por Mirian), O Jugo das Palavras (Record, 2013). A sua poesia é bem interessante e transborda jogo de palavras, em um ritmo alucinante. 





30 de dezembro de 2025

Feliz Ano-Novo! (com Dalcio Machado)

Esse ano louco, trágico, surpreendente, violento, desafiador, está se despedindo. 2025 entra para a história por vários motivos, entre eles, por ter sido o ano da COP30, realizada no Brasil, que se não teve um relatório final que batesse o martelo para retroceder finalmente o avanço da crise climática, deixou pontos importantes planando no ar e nas cabeças de muita gente que pode mexer os pauzinhos para ao menos minimizar a catástrofe natural que se aproxima. Outro motivo que fez de 2025 um ano inesquecível foi a prisão inédita na história do país, de militares, no caso, os fardados que tentaram o golpe contra a democracia. O ano também teve dose maciça de violência, com guerras pipocando em vários cantos do mundo, o feminicídio marcando sua presença nefasta no noticiário brasileiro e manifestações sociais em vários países - com os EUA de Trump numa ebulição interna que só deve crescer em 2026. Houve perdas  que doeram - Lô Borges, Jards Macalé, Nana Caymmi, Pepe Mujica, Ozzy Ousborne, Angela Ro Ro, Preta Gil, Arlindo Cruz, David Lynch, Papa Francisco, Luiz Fernando Veríssimo, Diane Keaton, Brigitte Bardot (que deve ser reverenciada pela sua arte e defesa dos animais em contrapartida às suas declarações pessoais lastimáveis), Jussara Lanzelotti (filha do grande artista José Lanzelotti e guardiã do seu legado) Fausto Kataoka (o grande editor e gráfico, já homenageado aqui no blog) e Von Dews (grande pesquisador do universo Marvel e principalmente do universo dos X-Men). Pessoalmente, me despedi de amigos também: Ada Caperuto, que se foi tão jovem e no auge de sua criatividade como jornalista, escritora e artista e ontem, uma grande amiga da família, dona Iolanda, que viveu bastante e intensamente, sempre ajudando o próximo e distribuindo sua simpatia inerente. No campo do trabalho, o bolso ficou quase todo o tempo vazio, mas pude participar de projetos incríveis: um deles, o álbum "Fábulas de La Fontaine Ilustradas por Gustavo Doré", mais uma restauração e homenagem à Ebal do editor e amigo Francisco Ucha, onde pude participar, além da revisão e pesquisa, de um texto sobre os tradutores das fábulas publicadas nesse álbum originário dos anos 1960. O ano viu também mais uma biografia escrita por mim na série "Biografias Ilustradas" da Editora Criativo, com edição de Marcio Baraldi: "Bira Dantas - A Arte de Viver da Arte" - uma grande honra ter tido essa oportunidade de retratar a vida de um dos mais importantes artistas gráficos em atividade no Brasil. Para a Criativo escrevi também o texto de apresentação do álbum "A Turma do Ia Ia Iac", de Paulo Hamasaki e da biografia de Mario Mastrotti ("Quadrinhos Cúbicos") feita por Fernando Moretti - Mastrotti, aliás, que pude homenagear em artigo da revista Raízes, bem como a querida Ada Caperuto ( em parceria com Lilian Mendes). As revisões também foram intensas - "Olhares sobre Wolverine" (com organização de Guilherme Smee); "Curiosidades Marvel", obra escrita e pesquisada por Alexandre Morgado e editada por Levi Trindade; "Splash - Uma Breve História da Publicidade em Quadrinhos", um calhamaço formidável escrito e pesquisado pelo colossal Toni Rodrigues, também grande amigo; e a biografia de Akira Toriyama, do inoxidável Eduardo Pereira (a quem pude finalmente conhecer pessoalmente no Gibi SP Festival). Tive a honra também de revisar duas obras realizadas por membros de minha família: as ficções "Becos Etéreos" do meu sobrinho Guilherme Scapacherri e "Arevalidad", do meu cunhado Magno Veiga (obra com objetivos sociais). Graças ao meu sobrinho Gui, participei também do curta sobre a videolocadora Charada, heroica casa cultural da Zona Leste (escrevi sobre ela no blog), a sair em circuito comercial em 2026. E pude pela terceira vez, fazer a cobertura da CCXP, via LivedeQuadrinhos, do Ucha (a quem agradeço por mais essa oportunidade), ao lado do chapa Marcus Santana (as entrevistas estão linkadas em post anterior). Como escritor, participei de uma Fanzinada Especial num casarão no centro de São Paulo (lindo!), ao lado de Mastrotti, Paulo Baptista e outros amigos (Thina Curtis, valeu!) e consegui organizar dois Saraus na Livraria Casa das Ideias, aqui no meu bairro (um deles, foi devidamente registrado no blog). Por tudo isso, um ano intenso, em todos os sentidos. Reencontrei muitos amigos - em encontros da Turma do Ponto de Táxi, minha grande turma da mocidade e da Turma de Jornalismo da Metodista, com amigos essenciais na minha trejetória - e viajei com a família para lugares mágicos - Paraty, São Thomé das Letras e Ouro Preto. Que venha 2026, com saúde e muitas surpresas boas. A todos os leitores e seguidores do Almanaque do Malu, um ótimo e feliz ano à frente! Vamos que vamos. 

Ilustrando esse último artigo do ano, um cartum (mais um) genial do sempre criativo Dalcio Machado.


27 de dezembro de 2025

Bau do Malu 91 - Cartão 'print' com as assinaturas originais dos membros do Iron Maiden




Consegui esse item num leilão há alguns anos atrás. Além dos autógrafos de todos os integrantes da banda inglesa, feitos com caneta esferográfica, a peça veio com certificado de autenticação, datado de 26/01/2015, legitimando a origem do documento.

26 de dezembro de 2025

A biografia de Bira Dantas pela Editora Criativo


Desde julho estava escrevendo com muito carinho a biografia do múltiplo Bira Dantas (cartunista, caricaturista, quadrinhista) e finalmente neste final de dezembro ela ficou pronta na gráfica e já está disponível para venda no site da Editora Criativo (link abaixo). Essa série "Biografia Ilustrada", aliás, já ultrapassou 20 títulos, graças à dedicação e paixão dos "cabeças" dessa coleção, que homenageia tanta gente importante das artes gráficas e dos quadrinhos no Brasil: Carlos Rodrigues e Franco de Rosa (da Criativo) e Marcio Baraldi (do selo Grrr!) - e graças ao convite deste último, pude escrever a terceira biografia para a série (além do Bira, escrevi as biografias de Getulio Delphim e Paulo Hamasaki). Como muitos amigos e colegas de profissão comentam, Bira Dantas merece muito essa homenagem, não só pela sua importância para as nossas artes gráficas, mas pelo seu empenho e ação para que as HQs brasileiras tenham visibilidade e o respeito que merecem. Fiquei extremamente orgulhoso de ser o autor desse livro e um pouquinho decepcionado por não poder ter incluído tudo o que Bira já produziu nesses quase 50 anos de carreira - embora saiba que para isso, a biografia precisasse de mais de 200 páginas. De qualquer maneira, este volume inclui o melhor de Bira Dantas, esse artista incrível que não para de produzir (enquanto estou escrevendo aqui, certamente um novo projeto está sendo finalizado por ele). Obrigado, Bira, por tudo!

A biografia pode ser adquirida aqui: https://www.comix.com.br/graphic-book-bira-dantas-a-arte-de-viver-da-arte.html?srsltid=AfmBOopafUUZIpN6hJTxxUIPm29doz5BRJMINZDi0GZvlyvKZ1nB3Heh

Homenagem dupla na revista Raízes nº71: Ada Caperuto (1965-2025) e Mario Mastrotti


A última revista Raízes (a 71, lançada neste mês) me encantou deveras. Na mesma edição pude homenagear dois grandes amigos - aqueles de uma vida toda - e o resultado me emocionou profundamente. Mario Mastrotti é um artista muito conhecido no Grande ABC, muito por conta do seu personagem Cubinho, que surgiu em 1975 nas páginas do Diário do Grande ABC e conquistou um lugar no panteão das HQs brasileiras icônicas por tratar de temas corajosos (violência, guerra e igualdade em plena Ditadura Militar) e até então quase não comentados na imprensa (degradação ambiental, ecologia, racismo). Mastrotti desde então fez muito pelas artes gráficas brasileiras, criando outros personagens para jornais e revistas, unindo cartunistas do Brasil inteiro nas publicações cooperativas de sua editora Virgo e participando ativamente de salões de humor e mostras (como as mostras de aniversário do Cubinho em São Caetano, a precursora mostra em duas edições sobre os Beatles em São Caetano, os prêmios em salões de humor tanto nacionais como internacionais e sua participação ativa na produção do Salão de Humor de Doação de Órgãos, que rola a todo vapor há anos). Escrever um artigo sobre os 50 anos de sua carreira, ele que é um grande chapa com quem tive a honra de executar projetos mágicos (e ainda estamos nesse caminho) me fez mais feliz nessa reta final de 2025. A outra homenagem, para a querida amiga Ada Caperuto, que estudou na minha turma de jornalismo da Metodista (lá nos idos do final dos anos 1980), foi mais emocionante e dolorosa, pois ela nos deixou repentinamente no segundo semestre aos 60 anos, em plena atividade como jornalista, escritora e artista plástica. Em parceria com Lilian Mendes (que assinou o artigo) conseguimos homenagear a tempo essa grande amiga, que transboradava criatividade, escrevia como poucos e amava sua cidade natal São Caetano. Que sua presença marcante nessa passagem pela Terra inspire artistas, jornalistas e principalmente as mulheres que tem muito o que escrever, desenhar e pintar, mas por vários motivos, escondem suas criações no fundo das gavetas. Mastrotti e Ada presente!

                                      Uma das incríveis ilustrações de Ada Caperuto

                                        O emblemático Cubinho em exposição pelos seus 40 anos (2015)

Quem quiser adquirir a edição 71 de Raízes, pode retirar um exemplar gratuitamente na sede da Fundação Pró-Memória de São Caetano, na Avenida Dr. Augusto de Toledo, 255, em São Caetano do Sul-SP. No início de 2026 essa edição estará disponível digitalmente e na íntegra no site da Pró-Memória (ao lado de todas as outras edições da revista).

As entrevistas para a LivedeQuadrinhos na CCXP 2025

                                                                        Eu entrevistando o autor Wander Antunes na CCXP 2025 

Pelo terceiro ano consecutivo, eu e o chapa Marcus Santana fizemos entrevistas para o canal LivedeQuadrinhos de Francisco Ucha. Um prazer imenso encontrar e conversar com pessoas tão talentosas!

As entrevistas estão disponíveis aqui:

https://www.youtube.com/@LivedeQuadrinhos/videos


17 de dezembro de 2025

Baú do seu João 41 - Livro "Super-8 e Outras Bitolas em Ação"


Teve um momento ali nos anos 1970 que meu pai, sempre irrequieto, resolveu aprender as mumunhas da arte do Super-8. Comprou livro, fez curso e no final desse processo finalizou um curta-metragem filmado no quarteirão de casa em São Caetano, munido de câmera Super-8 na mão e participações de familiares e amigos (entre eles meu saudoso tio Dito). O filme está desaparecido (mas não sumido - eu hei de encontrá-lo), mas a câmera, o projetor Super-8 e o manual do curso fazem parte do meu acervo. Este livro, comprado na época (essa terceira edição é de 1975) também sobreviveu às intempéries. Uma de suas curiosidades é que essa interessante arte de capa é do Nicolielo, veterano artista do nosso cartum (vejam seu perfil no link abaixo). Seu João sempre surpreendendo...

https://galeriaartequadros.com.br/nicolielo/

16 de novembro de 2025

Fausto Kataoka (1945-2025)


Sábado de manhã, uma notícia muito triste para o mercado gráfico e das histórias em quadrinhos: o querido e lendário Fausto Kataoka, depois de algumas semanas em estado grave no hospital, faleceu aos 80 anos.Tive a oportunidade de conhecê-lo nos famosos encontros aos sábados no seu sebo na Avenida São João, em São Paulo (Sebo do Japa), onde, rodeados de gibis antigos, cerveja e petiscos (e feijoada muitas vezes), amigos de longa data do universo das artes gráficas, se reuniam para papos inesquecíveis - passaram por lá nos últimos tempos: Henrique Farias, Drago, Omar Viñole, Gonçalo Junior, Tony Fernandes, Franco de Rosa, Julio Hamasaki, Isaac Huna, Paulo Fukue, Mario Mastrotti, Luigi Rocco, Dario Chaves, Laudo Ferreira, Gustavo Vícola, Marcio Baraldi, Nobu Chinen, Alexandre Nagado (e muitos outros), demonstrando o que Fausto tinha de melhor: seu poder agregador! Com poucas palavras no dia a dia, conseguia reunir os amigos, tanto para bebericar e conversar como para tocar um projeto editorial bacana. Assim foi na vida. Fausto, que teve sua biografia lançada no meio do ano, escrita pelo seu amigo Tony Fernandes para a Editora Criativo, é considerado um dos mais prolíficos e importantes produtores gráficos brasileiros a partir dos anos 1970 e para o boom do mercado de histórias em quadrinhos no período, sua atuação foi fundamental. Para os mais chegados, inclusive, seu apelido era Faustolito. Quando escrevi a biografia de um dos grandes amigos da sua vida, o editor, diretor de arte e quadrinista Paulo Hamasaki, falecido em 2015, Fausto não só me ajudou muito para compor os detalhes de sua história, como apareceu muito em vários capítulos do livro - a sua produção ao lado de Hamasaki desde a Noblet, passando para a editora homônima anos depois, foi imprescindível para tantos lançamentos de histórias em quadrinhos nacionais. Meus sentimentos a todos os seus familiares e amigos. Pode descansar agora, nobre Fausto, que o seu legado está registrado e será sempre lembrado por quem compactuou com seu suór, sonhos e conquistas. Abaixo, alguns encontros no Sebo do Japa em 2024 e 2025...

  da esquerda para a direita: Farias, Drago, Omar Viñole, Massolini, Franco, Julio Hamasaki, Fausto Kataoka e Isaac Huna

    Paulo Fukue, Kataoka, Isaac Huna, Tony Fernandes e Drago

    Drago, Gustavo Vícola, Gonçalo Junior, Fasto Kataoka, Paulo Fukue, Henrique Farias e Tony Fernandes

   Luigi Rocco, Tony Fernandes, Dario Chaves, Fausto Kataoka, Mario Mastrotti e Isaac Huna

     Tony Fernandes, Drago, Farias, Faustolito e Paulo Fukue

 

      Marcos Massolini, Franco de Rosa, Fausto Kataoka, Julio Hamasaki e Isaac Huna

29 de outubro de 2025

Ricardo Leite destrinchando o livro "Suplemento Juvenil - 90 Anos"


Eu adorei esse vídeo do Ricardo Leite. Além de ser um baita artista e um pessoa gentilíssima, autor de um dos livros mais importantes da HQ brasileira, que é o "Em Busca do Tintin Perdido" (quem não leu ainda, está perdendo um marco da nossa literatura voltada para a nona arte), Ricardo é daquelas pessoas que não só trabalham com o que gostam, mas também exaltam e vibram com os bastidores da história e com todos que a construíram. E quem acompanha os vídeos do Ricardo sobre as HQs, sabe que ele, quando destrincha, destrincha pra valer, trazendo as informações mais importantes sobre cada item ou tema focado. Abraço, Ricardo Leite!

https://www.facebook.com/share/v/1JwSmvGMPE/

9 de outubro de 2025

Abertura "X-Men" em The Simpsons (2017)

Uma das aberturas clássicas dos Simpsons, essa do X-Men ainda teve a aparição do "homem" (no ano segunte, ele faleceu)



30 de setembro de 2025

Gilberto, da Charada, última videolocadora da perfiferia de SP, é destaque na Folha de S.Paulo

Saiu uma ótima matéria na Folhona de hoje sobre o Gilberto da Charada. Em breve, o doc "Rebobinando Memórias" (nome provisório) vem à luz, pela Murmur. Esperando ansiosamente. Participar desse projeto foi uma grande honra pra mim - Gilberto se tornou lenda não só por ser um sobrevivente cultural e agregar tanta gente em prol do cinema e da música independente, mas por ter um espírito livre de amarras e uma solidariedade e empatia natural, coias tão raras em nosso cotidiano atual. Vida longa à charada. A matéria, assinada por Alex Sabino, tá aí embaixo.

Dono da última videolocadora da periferia de SP diversifica para sobreviver e vira personagem cult

Charada está aberta há 30 anos no mesmo endereço em Sapopemba, na zona leste da capital

'Resistente', dono realiza show de rock, comédia stand up e mostra de cinema para gerar receita

Tudo o que Gilberto Petruche, 69, faz na vida tem um objetivo: manter aberta a sua videolocadora. Ele é casado e com filhos, mas diz que a Charada, no bairro de Sapopemba (zona leste de São Paulo) é sua casa e sua família.

"Eu posso estar em dúvida sobre tudo na minha vida. Mas quando estou aqui, só tenho certezas. É o meu lugar", afirma.

Com 30 anos de existência, trata-se da última videolocadora aberta na periferia da capital.

Homem de cabelos grisalhos e óculos está em pé no centro de uma sala com paredes cobertas por prateleiras cheias de fitas VHS organizadas. Ele veste camiseta preta com detalhes verdes e calça preta com faixa branca, calçando tênis branco. No chão, tapete redondo com texto e várias sacolas coloridas estão ao lado direito.
Gilberto Petruche, 69, dono da Charada Locadora, no subsolo da loja no bairro de Sapopemba - Rafaela Araújo/Folhapress

O desafio a cada mês é arrecadar o suficiente para manter o sonho vivo. Se sobrar algum dinheiro, ótimo. Se não, paciência. O importante é subir o portão de ferro e ficar atrás do balcão todos os dias para falar sobre seu acervo 15 mil DVDs e 6.000 VHS.

A meta é chegar a R$ 3.000 para pagar o aluguel, além das contas de luz e água. A média do número de locações por mês é de 15. Cada uma custa R$ 8, com direito de ficar com o filme por dez dias. São R$ 120 no total.

A dificuldade financeira não deixa de ser ironia para alguém que é economista, administrador de empresas e técnico em contabilidade.

"Antes, eu era funcionário de empresas, mexia com o dinheiro dos outros e era bom nisso. O problema é administrar o meu."

A locadora é um símbolo. Ela continua aberta porque Petruche sempre arruma novas maneiras de criar receitas. Vai a feiras e eventos para cinéfilos ou gamers. Converte VHS (e os limpa, se necessário) para DVD.

Realiza mostras de curta metragens, shows de comédia stand up e, há nove anos, recebe grupos de rock, MPB e jazz para apresentações que já reuniram cerca de 400 pessoas em um espaço em que só com esforço mental dá para imaginar que caibam mais de 100.

No próximo mês vai acontecer a 94ª edição do festival Idade da Terra em Transe. O nome é referência a Idade da Terra e Terra em Transe, dois filmes de Glauber Rocha, o cineasta favorito de Petruche.

Em eventos, as pessoas sempre compram algo na loja. Ele também vende cervejas, refrigerantes e comida.

Deus e o Diabo na Terra do Sol, outro longa-metragem de Glauber, é o favorito do dono da Charada. Petruche afirma que seu jeito improvisado e caótico de administrar a locadora e as próprias finanças é "glauberiana".

Toda sua vida como empreendedor no ramo de filmes aconteceu dessa forma. Quando quis abrir a loja, na década de 1990, e percebeu que o Sebrae não tinha muitos conselhos a lhe dar, decidiu descobrir por si mesmo. Viu um anúncio de emprego em que uma distribuidora procurava vendedor para oferecer filmes europeus a locadoras.

Parecia perfeito. Ele ganharia comissão, conheceria o mercado por dentro e trabalharia com cinema do Velho Continente, algo que adora. Quando chegou à entrevista, viu que eram produções da Europa, sim. Mas pornôs. Foi contratado.

Rejeitou oferta do irmão para abrir a locadora na Mooca (zona leste) porque queria em Sapopemba. Desejava tentar em um bairro de periferia. Difícil foi convencer o dono do imóvel a aceitar fazer o contrato de aluguel. Ele recusou quando ouviu como o imóvel seria usado.

"Vai ser uma locadora diferente. Vou trabalhar com filmes brasileiros, argentinos, uruguaios...", explicou.

Ele se lembra do proprietário arregalar os olhos com a perspectiva de calote: "Agora é que não vou alugar mesmo!", ouviu. Mas alugou e a Charada funciona no mesmo endereço desde a inauguração, em 1995.

Não existe um número oficial sobre o número de videolocadoras ainda abertas na cidade de São Paulo. O sindicato da categoria não existe mais. Petruche diz que são apenas quatro porque os proprietários costumam conversar, falam sobre isso em eventos, vídeos e podcasts e nunca nenhum outro comerciante do ramo se apresentou.

Até 2014, tudo funcionou bem. Sempre entrou mais dinheiro do que saiu. Em um final de semana (sexta, sábado e domingo) conseguia o dinheiro para pagar o aluguel. O restante deveria servir para fazer caixa. Mas para justificar a explicação de que administra melhor o dinheiro dos outros do que o próprio, ele reinvestia tudo na compra de novos filmes. Adquiria praticamente todos. Sempre odiou dizer para um cliente que o VHS ou DVD desejado estava alugado.

Quando saiu Titanic, encomendou 55 cópias. Lembra-se de as pessoas fazerem fila na porta. Era um tempo em que ele alugava 500 filmes por dia e, se o número caía para 350, começava a questionar se havia algo errado. Seu recorde foi 890.

Com o tempo, Petruche, assim como todo o mercado, foi engolido pelos serviços de streaming e downloads pela internet. Quando abriu a Charada, diz que existiam 20 outras videolocadoras no raio de um quilômetro. Hoje, está só.

"Não tenho nada de especial aqui. As paredes [do lado de fora] são pichadas e decidi que não ia pintar porque, se gastasse dinheiro com isso, deixaria de comprar filmes. Eu só sou uma pessoa que está resistindo", resume.

Resistir virou seu marketing pessoal e o veículo para a Charada sobreviver financeiramente. Pessoas saem do interior de São Paulo e de outros estados apenas para conhecer a loja. O comércio e seu dono viraram personagens de culto entre os amantes de cinema.

Um documentário ("Rebobinando Memórias" é o título provisório) está sendo feito sobre Petruche. O canal "Rinha de Cinéfilo" fez dele um dos seus personagens principais no Instagram e no TikTok. Quase todas as semanas estudantes de cinema ou colecionadores o procuram.

"Eu faço eventos para pagar as contas. Sinto muita pena de vender meus filmes. Eu não gosto de vender. Vendo porque preciso pagar aluguel", diz, em mais uma declaração rara para um comerciante, economista e administrador.

Ficar conhecido, mesmo que seja no seu nicho, causa-lhe sentimentos conflitantes. É o que ajuda a manter seu sonho funcionando e o faz ganhar dinheiro. Mas incomoda.

"Fico pensando como vou manter isso. Eu tenho um monte de problema, preciso fazer cirurgia [de catarata] e já tenho quase 70 anos. Eu às vezes questiono se está valendo a pena. Só que eu chego aqui [na loja] e mudo de ideia. Por isso que não passa pela minha cabeça fechar."

"Eu faço eventos de música, eventos de stand up, estou em documentários, rede social, tem gente que vem aqui e me chama de lenda. Tudo isso é para conseguir recursos para a Charada. Porque a única coisa que eu quero na minha vida é ser dono de videolocadora."

22 de setembro de 2025

Gonzaguinha 80

O Globo fez a matéria ontem, mas o aniversário do Gonzaguinha é hoje. 80 anos! O grande e autêntico compositor - que até hoje não foi totalmente decifrado pela mídia e pelo público - faleceu muito, muito cedo, com apenas 45 anos. Tem tanta coisa a se descobrir na discografia dele! Hoje mesmo, em homenagem ao seu aniversário, comecei a escutar sua porção menos óbvia, ali do começo dos anos 1970 até 1975, quando ele fazia uma mistura inusitada de baião, samba, folk brasileiro, com pitadas de clube da esquina e experimentações sonoras de estúdio. Percebi nuances que não tinha captado em outras audições. Gonzaguinha precisa ser descoberto pela nova geração, essa mesma geração que anda capturando joias do samba rock, da música black brasileira dos anos 1970, do sambalanço, da música paulistana da virada dos 70 pros 80. Gonzaguinha é único e não pode ficar no limbo por não ser decifrado como devia. A matéria que eu citei tá aí embaixo.